- Oi! Tudo bom?
- Tudo, e contigo?
- Tudo tranqüilo... Olha, eu queria te dizer uma coisa.
- Fala!
- É que é meio difícil falar. Tenho a impressão que toda vez que falo, fico sozinha.
- Como assim?
- Sei lá! É a sensação que me dá, falar. Vou tentar explicar: eu fico aqui, no meu mundinho. Ninguém tem acesso a ele, certo?
- Certo! Mas não entendo.
- O que eu falo, ou de alguma maneira passo pras outras pessoas, seria aquilo que se passa aqui dentro.
- Hum
- Mas, ao chegar na outra pessoa, aquilo já deixou de ser o que eu queria que fosse. É como a oxidação: saiu daqui, oxidou.
- Tá.
- Quando a outra pessoa recebe este pacote oxidado, aquilo, o que quer que seja, entrou no mundinho da outra pessoa e, por isso, começou a interagir com aquele outro meio-ambiente.
- E?
- E que já não posso mais ser considerada responsável pelo pacote. Saiu da concessionária, perdeu a garantia!
- ?
- Não dá nada. A maioria das coisas que eu falo, falo pra mim mesma. Mesmo que pareça que é com alguém aí fora que falo... Isto deve ser o tal cada homem é uma ilha, que circula por aí.
- Não fala mais, então!
- Não dá. Mesmo que eu não saiba o que dizer, preciso falar... Mesmo que eu pense muito, não sei porquê, quando sai, sai estranho, sem ser o que eu quis dizer. Mas, ainda assim, preciso falar.
- Viver em silêncio... É, acho que não dá.
- Viver em silêncio seria como amar mais...
- Agora te perdi de vez! Não tô entendendo...
- É que a nossa relação com as palavras é uma relação de traição.
- Fale mais sobre isso...
- !!!! Pra me atrapalhar ainda mais?
- Não! Porque se a gente parar de falar, a gente para de se relacionar. E eu me pergunto se é melhor não errar com as palavras – não trair nem ser traído – do que seguir o caminho sozinho...
- Mas a gente devia conseguir se expressar direito, sem erro. Só isso.
- É a vida, e ela é difícil. A gente pensa, a gente fala, a gente se expressa, a gente se desentende, se entende, etc.
- Devia ser fácil. Devia só ser bela e fácil, sem complicação. A gente tem que renunciar a algo para falar, esse é o problema.
- Renunciar?
- É. Quase como renunciar à vida. Falar é como morrer, ou passar por um luto importante, forte, dolorido. É como se fosse preciso se desapegar. Deixar ir... Mesmo nesse eterno vai e vem entre o silêncio e a fala, falar tá sempre com a gente, no pensamento.
- Isso me fez lembrar aquela música que fala das palavras que nunca são ditas, como se elas fossem especiais, mais verdadeiras e corretas, sem esses erros e mentiras de que tu fala.
- Eu não falei em mentiras.
- Mas falou em mal-entendidos. Isso soa a mentiras.
- O que me preocupa é que as pessoas se machucam, se ofendem, se torturam, por causa das palavras. As palavras parecem ser mais fortes que a verdade do que se sente.
- Mas, por outro lado, se esse desentendimento for superado, se chega à verdade. Se é que ela existe. Todo esse papo, aconteceu alguma coisa.
- É.
- Não quer falar.
- Não.